Tornar-se negro para quem? Um diálogo entre Brasil, África do Sul e a memória ancestral africana
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Resumo
Desde a colonização do Brasil, a população negra foi tida pela branquitude como indesejada e confinada espacialmente. Esse racismo imposto pelos colonizadores sobre as pessoas escravizadas tem uma dimensão espacial e existencial influenciada pela raça, que continua ecoando na colonialidade. Essa dimensão do racismo também permeou as pessoas não-brancas na África do Sul por meio da institucionalização do apartheid (1948-1994), que racializou os sul-africanos em White, Coloured, Indian/Asian e Black, os segregou, e continua afetando as dinâmicas cotidianas. Desse modo, por meio de uma perspectiva experiencial centrada no contexto brasileiro e em diálogo com a África do Sul, guardadas as especificidades de cada país, discutimos como o marcador racial dita a construção do racismo anti-negro entrelaçada aos espaços, lugares e territórios, que nos constituem e que constituímos. Nesse entrelace, lançamos mão da escrevivência e da discussão do conceito de raça. Essas escolhas nos possibilitam tensionar como as pessoas negras tornam-se racializadas diante das pessoas brancas, ao mesmo tempo em que esse tornar-se pode ser entendido como uma manifestação existencial-política de enfrentamento à branquitude. Dialogando com Neusa Santos Sousa, Robert Bernasconi, Linda Alcoff, Sara Ahmed, Franz Fanon, e os autores sul africanos Saul Dubow, Pearl Subban e Jeremy Seekings propomos pensar a relação implicada entre raça e espacialidade em nosso existir desde nossos ancestrais. Tornar-se negro nos propicia dialogar com a memória ancestral africana como possibilidade de reconhecimento, reafirmação e reconexão de nossa identidade e existência.
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