Entre fábulas e ruínas: narrativas da libertação e a crise do nacionalismo na literatura angolana contemporânea
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Resumo
Cinquenta anos após a independência, o ideal revolucionário angolano revela-se tensionado por narrativas que, longe de celebrarem a libertação como epopéia concluída, desmontam sua dimensão mítica. Este artigo propõe uma análise da
trajetória da literatura angolana como campo de disputa simbólica sobre o passado, o presente e os sentidos da independência, tratando-a como espaço privilegiado de elaboração das ruínas do projeto nacionalista. Inspirado pela provocação de João Paulo Borges Coelho (2015), que identifica a narrativa da libertação moçambicana como uma “fábula” estatal, investiga-se como obras de
autores como Pepetela, José Eduardo Agualusa e Ondjaki tematizam, com diferentes tonalidades estéticas e gerações políticas, os fantasmas da independência: o apagamento dos vencidos, a reinvenção oportunista da memória, a persistência do autoritarismo e a erosão da utopia socialista. A partir de uma abordagem antropológica e interpretativa, o ensaio se organiza em quatro momentos: (1) o papel da imprensa e da literatura no período colonial tardio; (2) a literatura revolucionária pós-independência; (3) os romances do
desencanto nos anos 1990; e (4) a literatura contemporânea marcada pela estética da ruína e pela crítica à reinvenção neoliberal do Estado. Argumenta-se que essas narrativas literárias não apenas denunciam o colapso do projeto nacional, mas reconfiguram a própria ideia de independência, deslocando-a da fundação heroica para o presente inquieto e desigual que ainda a reivindica. A literatura, nesse sentido, funciona como contra-arquivo, abrindo espaço para outras temporalidades e outras formas de imaginar Angola.
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